domingo, 8 de julho de 2018

A INCOERÊNCIA DO EMPIRISMO – Vincent Cheung

Há um argumento afirmando que a proposição "Todo conhecimento vem de proposições bíblicas e de suas implicações necessárias"[25] [26] é incoerente porque ela própria não é uma proposição bíblica, e não pode ser deduzida a partir de proposições bíblicas. Portanto, se alguém aceita essa proposição, deve rejeitá-la.
     Contudo, é de fato possível deduzir esta proposição das Escrituras. A Bíblia ensina que Deus é infalível, que a Bíblia é sua revelação infalível, que Deus controla todas as coisas, que o homem é falível, que as sensações e intuições do homem são falíveis, etc., etc. – a proposição é prontamente deduzida dessas premissas.
     Assim, a única coisa que a objeção faz é nos mostrar que os críticos não têm a capacidade de realizar as mais simples e óbvias deduções.
     Por outro lado, pense no empirismo. Costuma-se supor que a sensação é uma maneira confiável de obter conhecimento, mas considere apenas alguns dos problemas ligados ao empirismo e à ciência:
          1. Se o empirismo é racional, então deveria ser possível demonstrar sua racionalidade por um processo válido de raciocínio. Qual é esse processo de raciocínio? E, ele é realmente válido?
          2. Se o empirismo usa necessariamente a indução, então como ele pode evitar os problemas lógicos que acompanham com a indução?
          3. Se o empirismo é o próprio fundamento da ciência, então como a ciência pode ser considerada eminentemente racional quando ainda eles precisam defender o empirismo?
          4. Então, o que dizer do fato de que o método científico, por sua própria natureza, comete a falácia de afirmar o consequente em todo experimento?
     Alguém que condene minha oposição ao empirismo deve mostrar como ele pode conhecer alguma coisa por sensação através de sua epistemologia parcial ou totalmente empírica.
     Ele não pode demonstrar isso pela "razão pura", já que a lógica por si mesma não contém nenhum conteúdo do qual ele possa derivar uma prova para o empirismo. E usar a intuição como base para a sensação exigiria uma prova para intuição como um caminho para o conhecimento, bem como um padrão comprovado para determinar qual ocorrência da intuição estaria correta.
     Alguns empiristas cristãos afirmam que as Escrituras fornecem as precondições para o empirismo, ou que fornecem as pressuposições que explicam ou justificam o empirismo. As Escrituras, de fato, fornecem as precondições para que entendamos que o empirismo é irracional e falso, mas não fornece uma justificativa racional para dizer que o empirismo é verdadeiro. Um apelo foi feito a Mateus 24:32, mas mostrei que ele não pode produzir uma epistemologia "vejo, portanto, sei". E Mateus 24:32 não é o único versículo da Bíblia. O que dizer de João 12: 28-29 e 2 Reis 3: 16-24?
     Se a Escritura mostra apenas um exemplo em que a sensação não é confiável, então pelo menos precisamos de um padrão ou método confiável pelo qual possamos dizer qual ocorrência da sensação é confiável. Qual é esse padrão ou método? E esse padrão ou método é realmente confiável? Se eles alegam que uma sensação verifica outra, então isso implora a questão, já que não sabemos qual é a certa, e talvez ambas estejam erradas.
     Não importa quantas passagens bíblicas eles distorçam e abusem para o seu propósito, enquanto houver ao menos um verso nas Escrituras que sugira a falibilidade da sensação, então voltamos à questão de um padrão ou método pelo qual podemos dizer qual ocorrência é confiável.
     Alguns dos que sustentam uma forma de "apologética pressuposicional" têm estado tão obcecados em argumentar contra a minha oposição ao empirismo, que é como se agora estivessem defendendo o empirismo, e de tal maneira que muitas vezes contradiz o que eles diriam quando argumentam contra a apologética clássica e evidencial. Ao atacarem uma oposição ao empirismo, eles justificaram o empirismo? Como eles fizeram isso? E se o empirismo faz parte de sua epistemologia, então eles devem primeiro justificar o empirismo antes de atacar uma oposição a ele; caso contrário, eles estão apenas argumentando em círculo enquanto estão no ar.
     Se eles alegam que uma pessoa deve confiar em suas sensações físicas para ler a Bíblia, e que as palavras da Bíblia são transmitidas à mente através das próprias sensações físicas, e se eles também admitem que as sensações são falíveis, então o fato da Bíblia ser infalível imediatamente se torna irrelevante para eles, uma vez que eles nunca podem ter uma Bíblia infalível na prática. Isso ocorre porque a Bíblia, na verdade, só será tão confiável para eles quanto suas sensações.
     Mesmo se eu permitir que eles acreditem que as sensações são geralmente confiáveis, ainda é irrelevante a menos que eles possam me mostrar o quão confiáveis ​​elas são, e ainda mais importante, como eles sabem em quais casos elas estão corretas. Se alguém não pode mostrar em que casos as sensações ou as inferências das sensações estão corretas, então elas nunca são confiáveis, pois não há como distinguir a verdade do erro.
     Alguns deles afirmam que a Bíblia ensina que Deus criou o homem de uma maneira que ele pode usar seus sentidos para obter algum conhecimento, mesmo que as sensações sejam falíveis. Há pelo menos dois problemas com isso:
          1. Eles afirmam que devem confiar em suas sensações para ler a Bíblia em primeiro lugar, então como eles podem confiar no que eles acham que leram da Bíblia sobre suas sensações sem primeiro provar a confiabilidade da sensação? Eles argumentam em círculo.
          2. A Bíblia fornece muitos exemplos mostrando que os sentidos são falíveis, que eles estão frequentemente enganados. Portanto, mesmo que nos esqueçamos do ponto anterior, ainda não há como eles saberem quais ocorrências de sensações são confiáveis ​​e, portanto, não fazem nenhum progresso.
     Assim, é a visão deles que é realmente incoerente, porque eles não podem saber que suas sensações são confiáveis ​​por suas sensações. Por outro lado, nós contornamos todas essas dificuldades quando começamos a partir da mente de Deus e não das sensações do homem.
     Às vezes eles exclamam que, se não dependemos de nossas sensações, não podemos saber nada. Mas essa queixa nada faz para provar o empirismo e, portanto, não faz nada para mostrar que ele é a saída do ceticismo. Em contraste, afirmamos que a revelação é a única e segura saída do ceticismo. Nós, não consideramos a Bíblia como nada, mas começar com ela, é construir sobre uma base de ampla sabedoria e conhecimento.
NOTAS DE RODAPÉ:
[25] Isso é considerado um princípio do "Escrituralismo". O termo refere-se à filosofia de Gordon Clark. Embora seja frequentemente aplicado à minha filosofia, não aceito o termo. O primeiro princípio da
filosofia de Clark é, na verdade, não que todo conhecimento vem da Bíblia, mas que a Bíblia é a Palavra de Deus.
[26] Eu sou consistente nos contextos em que faço essa afirmação ou em uma afirmação como essa, embora nem sempre indique os contextos. Ou seja, os contextos sempre se relacionam a uma filosofia pública, como em debates, ao escrever um sistema de teologia ou filosofia, e assim por diante. Quando se trata de articular uma visão bíblica de filosofia ou apologética, especialmente quando se trata de epistemologia, estamos preocupados com a descoberta e justificação de proposições verdadeiras, bem como a refutação de todas as proposições opostas. Isso é feito principalmente em um ambiente público, isto é, público no sentido de algo apresentado ou projetado fora da mente, como em uma conversa ou publicação. Por exemplo, afirmo que a fé Cristã é verdadeira. Como eu respondo quando esta reivindicação é contestada? Como articulo uma filosofia coerente, abrangente e justificada em que essa afirmação seja verdadeira?Como mostro que estou certo e como mostro que o não cristão está errado? Essa é a questão, e quando essa é a questão, afirmei que realmente não há justificativa para o conhecimento exceto na revelação divina, que em nosso contexto é representada pela Bíblia. Em conexão com isso, eu frequentemente uso a palavra "revelação" em vez de "a Bíblia" para sugerir que o conhecimento é de fato derivado de algo que poderia ser maior que a Bíblia. Informações que Deus nos mostrará no céu, que ainda não estão na Bíblia, seriam conhecimento que derivamos da revelação não bíblica. Eu nunca afirmei que a Bíblia contém todo o conhecimento disponível que existe para os homens em todos os contextos e para sempre. Mais uma vez, poderemos certamente receber conhecimento que não está registrado na Bíblia quando estivermos no céu.
Embora todo conhecimento que recebermos no céu esteja em perfeito acordo com a revelação que já temos, teremos acesso a mais conhecimento, conhecimento que não está na Bíblia. Eu não sou tão estúpido a ponto de negar isso, e meus críticos não deveriam ser tão estúpidos a ponto de pensar que eu nego isso.
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Extraído de:
CHEUNG, Vincent.  Captive to Reason. ed. 2009. pp.34-36.
Traduzido por:
Cristiano Lima, em 08/07/18

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